"Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansar-mo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço."
Ricardo Reis
http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v319.txt
Reflexão pessoal
Este Poema ensinou-me que a vida é tão fugaz, passa tão rápido que não adianta agarrar-mo-nos às coisas porque poderão provocar sofrimento na hora da despedida, tanto para quem vai como para quem fica. Por isso sejamos livres, libertos das coisas, assim somos mais felizes até mesmo quando há despedida. Não adianta ter a ideia de que possuímos inúmeras coisas ou de que tudo dura para sempre porque isso é mentira, tudo tem um início e um fim, por isso basta viver feliz entre o inicio e o fim de uma forma livre, desapegado às coisas, porque sabemos que quando elas começam, um dia irão acabar e para não sofrermos basta apenas não agarrar-mo-nos às coisas. Assim somos felizes desde o início até ao fim. Esta aprendizagem proteja-se para a vida. Como e de que forma podemos vivê-la?
Desta forma e neste exemplo pode-se fazer a separação entre a teoria e a prática. Pois ao longo de toda vida é preciso esta barreira entre a teoria e a pratica. Mas isto aprende-se vivendo.
Carlos pascoal
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